Aprendizagem da Língua Portuguesa 

A organização por gêneros discursivos para o trabalho com produção textual

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Como você deve saber, durante décadas o ensino de língua portuguesa foi baseado na tradição gramatical e, somente nos anos de 1990, os gêneros do discurso foram tomados como unidade de ensino e o texto considerado o objeto de ensino por excelência. 

Essa virada discursiva colocou a produção textual no centro do processo de ensino-aprendizagem e, por isso, devemos entender o que são os genêros discursivos e as tipologias textuais. Além disso, aprenderemos como organizar o ensino de produção textual.

Gêneros do discurso

O conceito de gênero, adotado aqui, é aquele explicitado e defendido pelo pensador, pesquisador e filósofo Mikhail Bakhtin (1895-1975). Para esse teórico, 

[...] todas as esferas de atividade humana, por mais variadas que sejam, estão sempre relacionadas com a utilização da língua. [...]. A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera de atividade humana. [...]. Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso. 

BAKHTIN, 1992, p. 279, grifos do autor.

Para permitir uma aproximação desse conceito, recorreremos a uma situação cotidiana: imagine que você abre o jornal e lê uma notícia sobre mais um deputado cassado e outra sobre os primeiros cem dias do mandato do prefeito de sua cidade. Mais adiante, você lê uma notícia sobre as recentes contratações do time de vôlei para o qual você torce e, finalmente, uma outra sobre uma pousada recém-inaugurada em Natal (RN). Você acaba de obter informações sobre quatro assuntos distintos (cassação do deputado, gestão municipal, contratações do time de vôlei e pousada recém-inaugurada) em textos diversificados, escritos por jornalistas diferentes, publicados em seções e cadernos variados. No entanto, você nomeou todos eles como notícia e isso aconteceu porque esses quatro textos, apesar de diferentes, têm características comuns que nos permitem enquadrá-los em um mesmo gênero.

Mas, afinal, o que é o gênero do discurso? 

De certa forma, um gênero é como uma “família de textos” em que, apesar das diferenças entre seus “membros”, têm semelhanças tão significativas que somos capazes de identificá-los e agrupá-los sob um mesmo nome. 

Essas semelhanças devem-se, na verdade, às três dimensões que definem um gênero. São elas: 

Refere-se a conteúdos que são dizíveis em um gênero. Por exemplo, as notícias, apesar de terem assuntos diferentes, compartilham o mesmo conteúdo temático. Mas o que é dizível em uma notícia? Algo como acontecimentos inéditos, recentes e relevantes socialmente. 

Diz respeito às unidades linguísticas selecionadas pelo falante (ou autor), incluindo as escolhas lexicais (vocabulário), a organização das frases, o registro linguístico (mais ou menos formal), os conjuntos particulares de sequências textuais e demais aspectos gramaticais. Por exemplo, as notícias também compartilham os mesmos aspectos estilísticos, como verbos predominantemente no tempo presente; poucos recursos linguísticos qualificadores, como adjetivos e advérbios; falas dos entrevistados marcadas por aspas; e articulação entre sequências narrativas e descritivas. 

Responde pelo acabamento do texto. É a estrutura particular dos textos de um determinado gênero e está relacionada à coesão, à coerência textual e à progressão temática. Por exemplo, a estrutura particular das notícias apresenta um título curto e objetivo; uma linha fina e um corpo que se inicia pelo lide, trazendo as respostas para as questões básicas (quem, quando, o quê e como). 

Vislumbra-se, neste momento, a relação entre os gêneros do discurso e as sequências textuais. Muito raramente, um gênero será constituído por uma única sequência textual; ao contrário, predominam os gêneros compostos por várias sequências textuais. 

Exemplo

Tipologias textuais

Para Marcuschi (2005, p. 22), a expressão tipo textual deveria ser usada para “designar uma espécie de sequência teoricamente definida pela natureza linguística de sua composição {aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas}”. Ele acrescenta que, de modo geral, “os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção”. 

Observa-se, assim, que as tipologias textuais decorrem de uma classificação dos textos feita, sobretudo, pela linguística textual, tomando como base suas características linguísticas. Os tipos textuais são, portanto, uma abstração e ocorrem em número finito. A produção de uma narração ou de uma argumentação, por exemplo, só tem sentido na escola; na vida real, os sujeitos escrevem romances, contos, artigos de opinião, cartas de leitor. 

Ensino da produção textual

Temos agora os argumentos necessários para defender que o ensino da produção textual signifique o ensino da expressão oral e escrita por meio dos gêneros do discurso. Entretanto, se as situações de produção são virtualmente infinitas, os gêneros do discurso também o são e isso nos coloca a seguinte questão: como organizar o currículo de língua portuguesa tomando os gêneros do discurso como objeto de ensino-aprendizagem? 

A resposta a essa questão nos obriga, necessariamente, a pensar não apenas em quais gêneros serão tomados como objeto de ensino, mas também como serão organizadas as progressões horizontais, ou seja, internas a cada ciclo ou ano escolar, e as verticais (ou interciclos), ou seja, ao longo dos ciclos ou anos escolares. 

Um dos projetos mais bem organizados é aquele defendido pela chamada Escola de Genebra, composta por pesquisadores do Departamento de Didática de Línguas da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra.

Fonte: Shutterstock.

Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly estão entre os principais pesquisadores desse grupo e o artigo deles intitulado Gêneros e progressão em expressão oral e escrita: elementos para reflexões sobre uma experiência suíça (francófona), publicado originalmente em 1996, reúne uma proposta solidamente fundamentada na defesa de uma progressão curricular organizada em agrupamentos de gêneros. A seguir, conheça os agrupamentos propostos por esses autores (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 60-61).

Há, ainda, outras formas de organizar os gêneros: seguindo a programação ditada pelo material didático adotado, orientando-se pelas demandas próprias do projeto pedagógico da escola ou por esferas de circulação da língua. 

Também é interessante determinar quais gêneros serão de foco e quais serão de visitação. A seguir, compreenda a diferença.

São aqueles que devem ser explorados de forma sistemática e aprofundada, para que os aspectos temáticos, estruturais e estilísticos sejam compreendidos, garantindo a produção de textos nesses gêneros. 

São aqueles que recebem um tratamento mais célere e superficial e são alvo de atividades pontuais, que podem ser apenas de fruição, mas também de compreensão da leitura ou de exploração de conhecimentos linguísticos.

A seleção dos gêneros – orais e escritos; de foco e de visitação – que organizarão as progressões intra e interciclos é, sem dúvida, o primeiro princípio norteador do trabalho com a produção textual. A escolha dos gêneros deve propiciar aos alunos o contato; o acesso e a exploração de gêneros de diferentes esferas de circulação, de tipos textuais diversificados e que, além disso, sustentem o trabalho com os conhecimentos linguísticos previstos para cada ano/série escolar. 

Bons estudos!

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